"Gestos que unem: Ética e Cuidado no Desporto" de Roberto Salatkevych

4 Mai, 2026

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Muitas vezes, a ética no desporto é vista como um simples manual de proibições ou como a frieza impessoal de um regulamento. No entanto, na minha vivência como aluno do curso de Desporto e participando no projeto municipal “MEXA-SE”, de uma vila do interior do país, descobri que a verdadeira ética não se lê, sente-se. Ela não é uma barreira contra o erro, mas sim a base da dignidade que sustenta cada gesto e cada interação humana.

Ao acompanhar os técnicos de desporto do Município, percorrendo as freguesias do concelho para dinamizar a atividade física sénior, fui percebendo que o “fair play” vai muito além de um campo de jogo  convencional. Nesta vivência, percebi que a ética não se limita a seguir regras escritas ou a evitar uma lista de proibições. Para mim, ela é um compromisso diário com o respeito pela dignidade humana.

Embora as regras sejam a base de qualquer modalidade, a verdadeira ética manifesta-se nas decisões que tomamos no momento, ao adaptar o jogo para incluir todos os participantes, sem deixar ninguém para trás. No Boccia, encontrei o meu “campo de ética”. Ali, o respeito expressa-se em gestos simples: escutar com atenção quem tem dificuldade em falar, respeitar o tempo extra que um idoso precisa para lançar a bola ou oferecer o apoio físico necessário para que o movimento aconteça.

Esta prática exige paciência. Implica desacelerar o ritmo, repetir instruções com um sorriso e comemorar pequenos progressos que, embora discretos, representam grandes vitórias individuais. No “MEXA-SE”, vencer deixa de ser apenas aproximar a bola do jack. A verdadeira vitória é garantir que cada participante tenha a oportunidade real de jogar e de ser tratado com profunda dignidade.

Um momento que me marcou envolveu uma senhora que, inicialmente, hesitou em aceitar as bolas azuis. Com palavras cuidadosas e paciência, conseguimos desconstruir estereótipos e mostrar que o prazer do jogo está acima de qualquer cor ou resultado. Aquele instante de superação valeu mais do que qualquer ponto marcado no marcador.

O desporto é, assim, uma ponte entre gerações. Enquanto ofereço a minha energia e vontade de inovar, recebo de volta a sabedoria e a experiência de quem já viveu muito. Essa partilha fortalece o meu compromisso profissional: o desporto deve nutrir o bem-estar físico, emocional e social de todos.

Levo desta experiência uma certeza: o desporto sem ética é apenas um conjunto de gestos vazios. No meu caminho profissional, a técnica servirá sempre as pessoas, e não o contrário. A minha meta é ajudar a formar atletas de carácter, e não apenas de resultados. Porque ser campeão sem valores é apenas cruzar a linha em primeiro lugar; o verdadeiro desporto é aquele que faz todos crescerem e avançarem juntos.

Texto escrito pelo aluno Roberto Salatkevych

Cursos profissionais 2026/27

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